DULCINA DE MORAIS

A Faculdade de Artes Dulcina de Morais fica no setor norte de diversões de Brasilia. Já quase não há diversões por aqui: uma igreja tomou conta do cinema e um shopping avança lentamente sobre tudo. Em anos recentes a atriz Dulcina perguntou publicamente ao presidente da república onde estava o teatro na cidade que estavam construindo no centro do país? Encurtando uma história de coragem abriram o mapa ainda vazio de cidade e Dulcina de Morais pôs o dedo num ponto do vasto espaço onde seria erguida a universidade para um teatro ligado com a vida brasileira. Hoje em volta tudo cresceu e agora já nao é mais um canto vazio mas um lugar sabiamente cobiçado. A universidade, seus alunos, gestores, professores, amigos bravamente defendem sua permanência sempre ameaçada. Ontem e hoje eu e Fredy Állan estivemos por lá e fizemos junto com todos uma aula de intervenção urbana que começou exatamente no tronco que sobrou de uma grande árvore que foi vencida e cortada da frente do setor de diversões.
Andamos e cantamos por dentro do teatro e no camarim que foi da Dulcina de Morais combinamos para amanhã, domingo, meio dia, fazer uma cerimônia para abrir para o público o acervo e a história dessa universidade e dessa brasileira batalhadora atriz do teatro do mundo, praticante do amor e da coragem do poder da presença do teatro na frente da presença do poder.

Pascoal da Conceição

Advertisements

JANTAR

Image

JANTAR

Estes dois foram nossos anfitriões na noite de ontem, 29/08 Antonio Pitanga e Benedita Silva nos convidaram pra jantar. Foi salada, carne assada e um bacalhau com batatas e suco de maracujá. No apartamento quem estava no fogão, fritando umas batatinhas e fez toda nossa comida junto com uma ajudante foi a própria Benedita.
O pudim de leite moça de sobremesa não resistiu a nossa voracidade e não deixou pista nenhuma de sua existência pois foi devorado completamente. Só não tinha mais por culpa do Pitanga que disse pra Benedita não fazer muito porque o pessoal de teatro não ia comer tanto doce.
Ficou, porém, o convite para uma feijoada na casa deles no rio de janeiro ano que vem.
No final fizemos uma foto, aquelas de todo mundo junto, e a Benedita mandou uma declaração de amor e alegria ao Pitanga, um licor de amor pra fechar a noite, que foi breve, muito breve, durou, se muito l hora e 15 minutos porque já era tarde e a gente tinha espetáculo no dia seguinte etc e tal.
Esta foto eu tirei porque esquecemos eu e o Fredy Állan nosso material pra apresentação na Universidade de Teatro da Dulcina de Morais hoje cedo e ao voltar pra pegar estavam os dois risonhos na porta do elevador com nossa bacia que tem dois cérebros.
Amor e humor…

Pascoal da Conceição

NEGRO AMOR

Minha amiga me pergunta na fila do restaurante do festival se eu não vou “discorrer” sobre o apagão no Piauí.
Piadinha rs rs rs rs…
Eu até que estava procurando algum assunto pra “discorrer”.
Guilherme Reis, diretor no Festival, “discorre” que viu ontem um casal de turistas japoneses e filhos na porta do museu nacional falando com o segurança tentando entender obter alguma informação sobre a grande exposição que acontece ali. Nenhum funcionário, nenhum programa, nada, só o segurança. E não é piada.
Na vizinhança do ministério da cultura o teatro villa lobos está bem abandonado como o martins penna e o espaço Renato Russo onde vamos nos apresentar.
Essa coisa de patrocínio é bem perversa porque os marketeiros e empresas querem por seu nome na placa e assim justificar e pronto o seu investimento, pra isso se servem das celebridades.
O Festival Internacional de teatro do Cena Contemporânea faz 18 anos nessa capital federal. Hoje a manchete da ilustrada o chama de “arroz de festival”. Piada, mais uma, sobre o fato de se repetirem espetáculos de outros festivais. Aqui ninguém riu disso. Valia um agradecimento de coração por estarem trabalhando. Além do que, quem faz o festival está sim, como muitos de nós, ligados com o que acontece no Piauí, embora não pareça e nem dê pra explicar em poucas linhas. Mas a piada prevalece.
Em Fortaleza fizemos uma entrevista coletiva. Chegamos juntos cantando uma música da peça, até pra driblar esse viés do jornalista falar com um só e pronto, ignorando o ato coletivo que faz o trabalho no teatro. Pois, nas primeiras perguntas, um jornalista levantou virou pra camila pitanga e falou: agora depois do teatro, qual o seu próximo trabalho? Depois saiu sem dizer boa tarde.
Piadas, piadas nos jornais e capas de revistas.
É a gozação pública a serviço da policia do comportamento: “ridentes castigatis”.
Hoje tem estréia em Brasilia, distrito federal.

Pascoal da Conceição

CENTRO CULTURAL PIOLLIN

Aside

Marcelina, nossa produtora local na paraíba e produtora do centro cultural piollin, nos conta que algumas pessoas perguntam na portaria do Centro Cutural Piollin porque o espetáculo acontece aqui… O Piollin fica no Bairro do Roger, do lado do Zoológico, e tem de trabalhar duro pra manter toda estrutura funcionando. Não saberia responder. Muitas coisas a gente tem que fazer e pronto. No caso de grupos de teatro uma sede é uma coisa fundamental, a gente ensaia, guarda cenários, figurinos… Os espaços na cidade são sempre caros, nunca se tem apoio, claro, nada muito diferente da indiferença como são tratadas tantas outras coisas tão importantes como a cultura e a educação, a luta continua. Aliás, nem é luta, é defesa, temos que nos defender, isso sim. Shakespeare fez o seu teatro do outro lado do rio, na perifa de Londres, depois que deu certo todo mundo fala bem, deixa estar. Aqui no Piollin após o nosso último espetáculo começou uma campanha para juntar 30 mil reais e limpar e arrumar e reformar um grande salão para aulas de circo. Um espectador tirou uma nota de 100 reais e foi o primeiro, agora faltam 29 mil e novecentos.

Pascoal da Conceição

19 de agosto de 2013

Ontem, domingo, terminamos o último de quatro espetáculos de o duelo no Parque Nacional Serra da Capivara, na pedra furada pelo mar há milhares ou milhões de anos atrás, vai saber.

No último dia foi difícil dormir. Emoção de bons espetáculos, o lugar, coisas acontecendo o pensamento não pára. No alojamento estamos assim, as mulheres, como o manda o figurino, em quarto para dois, depois, de acordo com a lei, os mais velhos num outro quarto e os demais no alojamento. A instrução foi comprar protetores de ouvido e máscaras para dormir melhor, essas coisas.

Meu companheiro de quarto por idade é o Aury, com quem conversei sobre a produção nessa noite de domingo que antecede nossa viajem de amanhã para João Pessoa onde tudo começa mais uma vez. Aury me conta um pouco sobre sua formação como produtor que eu considero admirável construindo coisas como O IDIOTA e agora O DUELO.

Aury fez administração de empresas, mas sua experiência também vem do trabalho no Oficina. Ele é um produtor e tanto e ainda um bom ator! Agora ele fazia reuniões pelo telefone e contas e mais contas. Eram mais de duas da manhã e no dia seguinte, segunda feira, cedinho, dezoito de horas de ônibus pela frente tudo recomeçaria em nosso novo destino. As despesas aumentaram, com o motorista que teve um AVC a combinação era de 2000 para transportar o cenário, porém, nas condições que agora se apresentavam o valor subiu pra 3800. Aury diz que gosta de negociar e tem prazer nisso, me dá uma aula: negociar você tem que fazer descansado, com bastante pressa. Eu podia reduzir este dinheiro do transporte mas vacilei e acabamos gastando mais, muito mais que o planejado, vem pela frente uma futura dor de cabeça para a prestação de contas aos burocratas.

Estamos na estrada, eu olho a paisagem e vejo o Piauí: um deserto. Viver aqui é muito seco. Escrevo dentro do ônibus.

Pascoal da Conceição

MATANDO UM LEÃO POR DIA.

A apresentação de ontem foi acompanhada pelos urros do leão do zoológico vizinho ao espaço onde estamos nos apresentando.
A sede do Grupo Piollin fica num engenho de cana de açúcar, o último em área urbana do Brasil, próxima ao centro histórico de João Pessoa. O Piollin foi despejado de sua sede, porém, na luta e por seu trabalho, que rendeu glórias e vitórias ao Brasil e à Paraíba, conseguiu que lhe fosse cedida em comodato uma antiga fazenda.
Tem muita coisa acontecendo aqui: oficinas, teatro, atividades em várias salas, construídas e mantidas pelo grupo, como me diz a Marcélia.
No antigo engenho, onde os escravos faziam o banguê, o melado que vai dar na rapadura, no açúcar e na pinga e outras delícias, fica o Teatro. É lá que o grupo se apresenta e traz espetáculos convidados do Brasil inteiro.
A estrutura de O DUELO não coube no teatro então foi armada no terreiro e próxima do muro do zoológico de onde moram o leão e outros bichos.

Pascoal da Conceição

CULTURA PELADOS E MISÉRIA

Quando o Teatro Oficina Uzona Uzyna viajou com OS SERTÕES e foi fazer em Canudos BA eu estava lá.
Fui porque meu amigo Dib Carneiro Neto Editor do Caderno 2 na época aceitou meus argumentos de me mandar pra Bahia como ator/jornalista Euclides da Cunha pra cobrir em paz e arte o que tinha sido uma guerra de horror e fratricídio relatada 100 anos antes pelo magistral Euclides da Cunha.
Na fila de entrada muita gente, mais de mil. Todo mundo de casa foi ver o teatro, como diziam, pai, mãe, filhos e filhas, avô e avô, todo mundo mesmo, sem barrar ninguém. Eu estava curioso na fila de entrada, de orelha em pé, assistindo ouvindo tudo, pra depois contar no jornal.
O Oficina já vinha fazendo uma longa jornada pelo sertão, muita gente que já tinha visto a peça em outras cidades do nordeste veio vindo com a troupe e fazendo junto também algumas cenas como é o jeito de teatro do grupo.
Quando aconteceu a cena em que a Ana Guilhermina, de Eva, chamava a platéia para subir na arvore dos frutos proibidos, todos foram tirando a roupa como ela e subindo.
Primeiro foi uma surpresa, umas risadas nervosas e aí, depois do espanto inicial, foi sobrando aos poucos um espanto de silêncio, de admiração e de epifania provocados pelo aparecimento dos corpos. Nunca vi tanto pinto junto!, falou uma mulher do meu lado.
Eu não tinha me atentado nisso, mas nenhum peito, nenhum pinto, boceta ou bunda é igual e ali naquela instante de sorrisos e curiosidade todos compreendíamos isso pela generosidade dos atores criadores.
Até então os atores personagens eram bandeirantes, soldados, cangaceiros, sertanejos, santos, santas, cantadores… e eles tirando a roupa mostravam por baixo das batinas, dos fardamentos, das couraças, armaduras, as pistas escondidas pelas couraças da semelhança de todos com todos e com toda a humanidade.
Viajando por tantas paisagens, sertão foi como se fosse pra redescobrir/saber que depois do preconceito, depois e mais depois, tem gente, tem pele, desejo, amor e dor.
Fala-se arrastado, com certeza, come-se bode, tem muito sol, e não se parece com programa de televisão tipo “Zorra total” com gente desdentada, iletrada, falando atrapalhado e demente. Nossa inspiração para a criação dos  personagens foi da melhor qualidade. Fomos generosamente recebidos em cada cidade em cada casa, vimos as paisagens a música, os bichos, sofremos pela falta de hospitais, a seca, e choramos mais uma vez a ignorância da grana que massacra coisas belas, tudo com a conivência mascarada de bondade daqueles que ficam ricos explorando essa dureza de vida.

Agora estamos em João Pessoa, na Paraíba, hoje vai acontecer o primeiro ensaio geral na sede do grupo Piolim. Vamos lá.

Pascoal da Conceição