CULTURA PELADOS E MISÉRIA

Quando o Teatro Oficina Uzona Uzyna viajou com OS SERTÕES e foi fazer em Canudos BA eu estava lá.
Fui porque meu amigo Dib Carneiro Neto Editor do Caderno 2 na época aceitou meus argumentos de me mandar pra Bahia como ator/jornalista Euclides da Cunha pra cobrir em paz e arte o que tinha sido uma guerra de horror e fratricídio relatada 100 anos antes pelo magistral Euclides da Cunha.
Na fila de entrada muita gente, mais de mil. Todo mundo de casa foi ver o teatro, como diziam, pai, mãe, filhos e filhas, avô e avô, todo mundo mesmo, sem barrar ninguém. Eu estava curioso na fila de entrada, de orelha em pé, assistindo ouvindo tudo, pra depois contar no jornal.
O Oficina já vinha fazendo uma longa jornada pelo sertão, muita gente que já tinha visto a peça em outras cidades do nordeste veio vindo com a troupe e fazendo junto também algumas cenas como é o jeito de teatro do grupo.
Quando aconteceu a cena em que a Ana Guilhermina, de Eva, chamava a platéia para subir na arvore dos frutos proibidos, todos foram tirando a roupa como ela e subindo.
Primeiro foi uma surpresa, umas risadas nervosas e aí, depois do espanto inicial, foi sobrando aos poucos um espanto de silêncio, de admiração e de epifania provocados pelo aparecimento dos corpos. Nunca vi tanto pinto junto!, falou uma mulher do meu lado.
Eu não tinha me atentado nisso, mas nenhum peito, nenhum pinto, boceta ou bunda é igual e ali naquela instante de sorrisos e curiosidade todos compreendíamos isso pela generosidade dos atores criadores.
Até então os atores personagens eram bandeirantes, soldados, cangaceiros, sertanejos, santos, santas, cantadores… e eles tirando a roupa mostravam por baixo das batinas, dos fardamentos, das couraças, armaduras, as pistas escondidas pelas couraças da semelhança de todos com todos e com toda a humanidade.
Viajando por tantas paisagens, sertão foi como se fosse pra redescobrir/saber que depois do preconceito, depois e mais depois, tem gente, tem pele, desejo, amor e dor.
Fala-se arrastado, com certeza, come-se bode, tem muito sol, e não se parece com programa de televisão tipo “Zorra total” com gente desdentada, iletrada, falando atrapalhado e demente. Nossa inspiração para a criação dos  personagens foi da melhor qualidade. Fomos generosamente recebidos em cada cidade em cada casa, vimos as paisagens a música, os bichos, sofremos pela falta de hospitais, a seca, e choramos mais uma vez a ignorância da grana que massacra coisas belas, tudo com a conivência mascarada de bondade daqueles que ficam ricos explorando essa dureza de vida.

Agora estamos em João Pessoa, na Paraíba, hoje vai acontecer o primeiro ensaio geral na sede do grupo Piolim. Vamos lá.

Pascoal da Conceição

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