kil abreu fala sobre as críticas da folha e veja

Kil Abreu  na sua página de rede social

A crítica de teatro na Folha de São Paulo está uma indigência.
O ser humano vai assistir a um espetáculo (O Duelo, no Centro Cultural São Paulo) e escreve parágrafos de duas, três linhas , para emitir uma leitura tão despreparada que não consegue passar da casca do objeto que analisa, tateando um argumento pífio, que mal informa e muito menos critica. Se for assinante, leia aqui: http://bit.ly/16zO356
O formalismo virou analfabetismo crítico. Ao menos os bons formalistas, mesmo em débito com a análise das questões de fundo, têm competência para minimamente dissecar o que a obra é do ponto de vista dos seus recursos e da sua comunicação. Aqui é assim: o crítico inventou uma “tese” insustentável para ilustrar o nada (a de que o espetáculo é uma versão regionalista da novela de Tchekov. Não se sabe como ele chegou a isso – talvez seja porque lá pelas tantas uma balalaika se transforma num baião. O mais provável é que se trate da típica atitude preguiçosa de quem traz a crítica no bolso antes de assistir à montagem (“grupo pesquisa no nordeste, portanto: tchekov = regionalismo”). De uma maneira ou de outra, o texto não contribui em nada. não ilumina nenhuma questão. Prefere ficar no estilo “crítica de escola de samba” que tem feito a miséria dos nossos dias: meia dúzia de adjetivos para cada quesito, e notas de zero a dez, com observações do tipo “o cinzento do espaço é preenchido (ai, ai, ai!) pela luz de fulano e o figurino de beltrano, compondo um clima festivo”. Reduzir a luz genial – em técnica e narrativa – do Guilherme Bonfanti à função de preencher espaços não é só ignorância, é antes de mais nada o indício de absoluta cegueira, não só da visão como sobretudo do espírito. Mais preguiça. Indizível.
O crítico também diz que o Espaço Cênico Ademar Guerra (o nosso porão) tem acústica muito ruim. Por isso se perde muito “do verbal” (alguns atores, portanto, estão melhores “no gestual” – Ui!). Deve ser por isso que cantores líricos gostam de cantar ali. Por isso também temos mais de cinquenta projetos de produções querendo estar lá – é que os artistas de teatro não conhecem nada de teatro, claro.
Sobre o espetáculo, sugiro o excelente texto de Wellington Andrade para a Revista Cult. Curiosamente parece que aqui o crítico ouviu tudo. Mais que isso: é uma crítica esperançosa, não porque favorável ao espetáculo, mas porque na pior das hipóteses ainda preserva esse bicho em extinção que foi o centro da boa crítica humanista: o argumento. O problema é que há esta condição um pouco incômoda: só argumenta quem sabe ler a cena.
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E AINDA KIL –
O Duelo, no Centro Cultural São Paulo. Com a Mundana Companhia.
Venho acompanhando esse projeto há uns meses já, quando ele ainda era projeto mesmo, para que pudéssemos recebê-lo lá no CCSP. A Luciana Schwinden postou as impressões dela sobre o espetáculo e lembrei, na contraface do entusiasmo dela, das pessoas que me perguntam, assustadas: “mas, são 3h20 de peça mesmo??” Sim, são 3h20 de peça mesmo!
Precisamos sair fora desse espírito de cultura fast-food que torce o nariz para qualquer filme ou espetáculo que dure mais que uma hora e meia. Não deveríamos reclamar por emprestar mais de três horas das nossas vidas diante de um teatro vivo. Caramba, nesse espaço curtíssimo de tempo é SÓ a revelação da miséria e da esperança humana o que salta da cena, num mesmo movimento concentrado. Por isso Tchekov é o autor que é. Nenhum problema. Problema seria ficar 15 minutos diante de uma cena morta.
O espetáculo como um todo é uma declaração de amor ao poder do teatro, à sua capacidade co-movente de cavar na realidade uns metros a mais embaixo dos nossos pés, ou projeta-la para além das nossas cabeças, fazendo ver aqueles espaços da nossa condição que um realismo estrito não seria capaz de alcançar. Por isso o trabalho da Mundana é digno do autor – porque essa foi também a tarefa que ele se colocou. Pra isso quase tudo ali está a favor: um time incrível atuando, uma encenação não protocolar e MUITO imaginativa, soluções cenográficas sofisticadas e ao mesmo tempo muito simples, um plano de iluminação que definitivamente reafirma o Guilherme Bonfanti como uma das maiores referências no metier – não só pelos efeitos e pelo gosto insuspeito como também pelo domínio técnico dos recursos. Uma beleza de luz.
Como disse certa vez o Peter Brook, a falta de dinheiro não pode ser justificativa para não se fazer bom teatro porque pode-se fazer coisas irrelevantes com muito dinheiro também. Pois vejam aqui como se pode fazer um espetáculo bacana no acabamento sem que isso, o acabamento, se sobreponha ao plano de pensamento: o que nos comove, nos diverte, nos faz pensar, nos mobiliza na direção da vida. O essencial a uma obra de arte, que precisar estar ali. Diante de um mundo em que a estética foi glamourizada ao custo de muita grana e pouca reflexão de qualidade, o espetáculo é exemplo de como os materiais usados na forma favorecem não uma beleza “art-decór”, mas o plano das ideias que ela comporta. Com recursos acima da média para os padrões de um grupo não comercial a Mundana inverte a ordem daquele verso e mostra a força da grana que pode destruir, mas também erguer coisas belas.

 

CULT – WELINGTON ANDRADE

“Ser um verdadeiro russo, ser plenamente russo,
não significa senão ser irmão de todos os homens.”

(Fiódor Dostoiévski).

O Centro Cultural São Paulo está abrigando, até o dia 15 de dezembro, um espetáculo potente e vigoroso que abre muitas frentes de discussão não somente na área da realização cênica, em sentido estrito, como também no terreno da cultura brasileira, em caráter mais amplo. Trata-se da adaptação da novela O duelo, de Anton Tchékhov, pela Mundana Companhia, a quarta incursão que o grupo realiza pela cultura russa, depois de O idiota – uma novela teatral (2010), Tchékhov 4 – uma experiência cênica (2010) e Pais e filhos (2012).

O médico e escritor Anton Pavlóvitch Tchékhov (1860-1904) dedicou-se a três gêneros literários que o alçaram à condição de uma das mais respeitadas personalidades das letras mundiais: o conto, a novela e o teatro. Depois de iniciar sua carreira escrevendo para diversas revistas breves narrativas humorísticas que lhe renderam bastante sucesso entre os leitores (embora nenhum prestígio junto à crítica), Tchékhov concentrou, no período que vai de 1886 até o ano de sua morte, toda sua energia criativa na concepção de obras antológicas. Inaugurou um modelo de conto impressionista no qual se destacam, por exemplo, A dama do cachorrinhoAngústiaOlhos mortos de sono, Queridinha e Um caso clínico. Estendeu a verve de sua prosa curta a novelas às quais imprimiu a marca de um existencialismo lírico e moderno, como em A estepeMinha vida e Mujiques. E encaminhou a cena russa para um tipo de naturalismo sui generis, levando o Teatro de Arte de Moscou a encontrar “um estilo” com as montagens de A gaivotaTio VâniaAs três irmãs e O jardim das cerejeiras.

O duelo, a novela que a Mundana Companhia houve por bem adaptar (publicada em forma de folhetim no jornal Nóvoe Vriémia, de outubro a novembro de 1891) é uma pequena obra-prima que reúne os principais temas da obra tchekhoviana: o desencanto de estar no mundo, o sentimento de inutilidade diante da vida, a percepção da felicidade como algo íntimo e fugidio, a compaixão tácita frente ao fracasso e à incerteza de dar um passo adiante… E as qualidades que a Mundana Companhia logrou ao transpor a obra da linguagem literária para a linguagem teatral são inúmeras.

O espetáculo preserva a força do texto de maneira espontânea, quase despretensiosa, não gozasse a palavra de certa aura de informalidade – bastante inadequada para um processo que resultou em um equilíbrio muito bem calibrado entre rigor e experimentação. O ponto alto da transposição – tão inteligentemente conduzida por Vadim Nikitin e Aury Porto – reside no fato de que não há uma deferência canônica à obra, tampouco uma apreensão intelectualizada de seu autor. Todos os atores se apropriam do texto tchekhoviano como se ele lhes fosse muito próximo, sem, entretanto – por mais paradoxal que possa parecer – esvaziá-lo de sua aguda profundidade.

Concorre para essa apropriação tão orgânica o abrasileiramento que o “texto precipitado em contexto” sofreu. Não por meio das águas superficiais do pitoresco e do folclórico nas quais se banha grande parte da dramaturgia televisiva, por exemplo, quando confunde a descoberta de uma cultura distante com fraseologia e estereótipo. Muito longe disso, a Mundana Companhia mergulhou com ousadia no Mar Negro para, depois de transpostas muitas fossas abissais, emergir no oceano setentrional que banha Fortaleza – de onde partiu rumo a Arneiroz, Lavras da Mangabeira e Iracema, cidades do sertão cearense que acolheram o processo de elaboração do espetáculo. O belo trabalho de sondagem da alma humana realizado pelo grupo leva a melancolia do homem russo parecer idêntica à do homem brasileiro, dominado igualmente por uma paisagem abrasadora, inóspita, imemorial. Calçados, peças de roupa, a onomástica russa e os sotaques brasileiros também convivem nesse estado de íntima similitude.

A envergadura do trabalho que a Mundana Companhia está empreendendo junto à cultura brasileira é digna de registro. Estudar as grandes narrativas ficcionais do século XIX e querer estabelecer entre elas e nossa contemporaneidade pontos de contato e de fricção é resistir bravamente à aridez fabular dos dias de hoje, saturados de hiperrealismo, pobres de fantasia criadora. Levar o público a fruir de uma experiência narrativa como essa (nas acepções de Roland Barthes e Walter Benjamin, respectivamente) é em si uma postura política porque implica ressignificar a relação ator-espectador. Para além do entendimento da poética tchekhoviana, há a compreensão de outros signos: a instauração do espaço cênico, a atuação coral da companhia, a distensão da noção de tempo de duração do fenômeno teatral, a atmosfera de festa e de celebração que emana dele…

E, não menos importante, porque costurando toda essa rede complexa de interações, há ainda que se destacar o caráter lúdico da montagem – presente na performance dos atores, na trilha sonora, nos figurinos, na iluminação, nos adereços (a escultura inflável manipulada por Camila Pitanga é de uma plasticidade impressionante!), nas pequenas interferências narrativas sobre o texto original – que concorre para acentuar, de tempos em temos, uma experiência de puro humor. Aquele tipo de humorismo sutilmente nonsense, presente tanto nas estepes de Tchekhov, como no sertão rosiano.

Cada ator da Mundana Companhia confere ao ato de estar em cena um vigor impressionante, imprimindo ao corpo e à voz um domínio criativo cada vez mais raro nos dias de hoje. Entre as duas presenças femininas do espetáculo, estabelece-se um contraste muito rico: o registro de Carol Badra se dá pela via de uma intensidade algo patética; o de Camila Pitanga, pelo caminho da sutileza e do langor. Das figuras masculinas emana aquela aura dionisíaca que parece ungir o melhor do experimentalismo paulistano, tão bem encarnada por Paschoal da Conceição, Aury Porto, Vanderlei Bernardino e Sérgio Siviero. E que atinge também as atuações envolventes de Fredy Állan e de Guilherme Calzavara. Registrem-se, na vivacidade das formas corais, as presenças de Otávio Ortega, Radael Matede e Victor Gally. E, conduzindo toda a equipe de criadores, uma atriz-diretora tão talentosa: Georgette Fadel.

Ao adentrar o espaço labiríntico e subterrâneo (nada mais russo, pois) do Centro Cultural e se deixar envolver pelo universo narrativo ali habilmente construído, o espectador aprende que não é possível perder de todo a esperança. E intui que é preciso conduzir seu espírito sempre alerta por entre lacunas, ambivalências e ambigüidades – sejam elas vividas na oscilação da psique ou no laconismo do discurso. E cerca de três horas e meia depois, quando deixar para trás o espaço da representação, ele descobrirá que é outra pessoa. Que aprendeu o valor do perdão e da fé no homem. Ainda que poucos personagens na vasta galeria tchekhoviana consigam vencer no mundo ou nele se ajustar, nós – seus leitores e espectadores – nunca perderemos o otimismo interior. Pois daqui a duzentos ou trezentos anos, haverá uma vida nova. Nova e feliz. E é para ela que estamos vivendo hoje, conforme nos ensina o autor de As três irmãs.

Sair desse espetáculo da Mundana Companhia é acreditar na avassaladora força do teatro, capaz de transformar o futuro inexpugnável em um mágico porvir, ao alcance de nosso aplauso.

VEJA – resenha DIRCEU ALVES Jr.
Depois da majestosa transposição de O Idiota, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), para o palco, a Mundana Companhia de Teatro reafirma a intenção de aliar ambição e criatividade com o drama O Duelo. A novela de Anton Tchecov (1860-1904) recebeu uma clara e fluente adaptação de Vadim Nikitin e Aury Porto, e a direção de Georgette Fadel se encarregou de levar à cena com criatividade as situações descritas pelo escritor russo. No centro da trama, o casal Laiévski e Nadiejda (interpretados por Aury Porto e Camila Pitanga) vive uma crise em meio ao calor intenso da região do Cáucaso. As ideias daqueles que os cercam não batem com as suas, e a incapacidade de enterrar o passado impede uma projeção futura.
Herdeira direta da estética do Teatro Oficina, a Mundana acumula experimentalismo e busca a extração de imagens através de elementos cênicos básicos. De um plástico preto, o espectador vê as ondas do Mar Negro. Georgette faz muito com pouco para encher os olhos do público. Com um bom time de atores às disposição — completado por Pascoal da Conceição, Sergio Siviero, Carol Badra, Vanderlei Bernardino, Fredy Allan, Guilherme Calzavara e Otávio Ortega —, a diretora, no entanto, concentrou forças em desenvolver os movimentos marcados de cada um e esqueceu de fortalecer a interpretação do texto. A maioria deles convence na transposição das emoções através do corpo. Nem sempre, porém, eles valorizam a força da palavra ao expressar o sentimento dos personagens. Mesmo Aury Porto e Camila Pitanga, os protagonistas e responsáveis por tipos bem desenhados, surgem em alguns momentos cambaleantes em relação aos perfis do casal central. E isso faz pesar as três horas e meia de duração da montagem (210min, com intervalo). 12 anos. Estreou em 11/10/2013. Até 3/11/2013. O espetáculo volta ao cartaz em 21/11/2013. Até 15/12/2013.
O duelo
Onde: Centro Cultural São Paulo –  Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso – SP
Quando: 12/10 a 3/11 e 21/11 a 15/12
Quanto: R$ 20,00
Info.: http://www.centrocultural.sp.gov.br
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